Uma startup quase bilionária

IstoÉ Dinheiro, Mercado Digital, 16/dez

O americano Brian Requarth sempre quis empreender desde muito jovem. Aos nove anos, ele alugava sua jaqueta do time de basquete profissional Chicago Bulls para outras crianças em sua cidade natal, a pequena Sebastopol, na Califórnia. Dos 14 aos 18 anos, dava aulas de natação na piscina da sua casa. Ganhava, em média, US$ 1,5 mil por semana, descontados os 15% cobrados por seus pais pelo “aluguel” do espaço. Já na San Diego University, onde estudou espanhol, Requarth vendia sobras de carpetes de mansões, obtidos em consignação.

 

Os clientes eram os zelosos pais dos calouros, preocupados em decorar o chão pouco atrativo dos dormitórios de seus filhos. Sua grande tacada empresarial, no entanto, aconteceu há seis anos, longe dos Estados Unidos. Em 2009, Requarth fundou, na Colômbia, o site de venda de imóveis VivaReal. No mesmo ano, a novata chegou ao Brasil. Avaliado em R$ 800 milhões por fundos de investimentos, o site é forte candidato a se tornar uma das raras startups brasileiras com valor superior a R$ 1 bilhão no Brasil. “É um marco interessante, mas não é o nosso foco”, diz Requarth. “Quando se tem esse objetivo, nem sempre você toma as decisões corretas para o negócio.”

 

Nem mesmo o cenário pouco favorável do mercado imobiliário local afeta os planos da VivaReal. A startup diz que movimenta cerca de R$ 1 bilhão em vendas por mês e ganha um percentual pela intermediação do negócio. Na prática, ela é uma imobiliária online, que conta com 3 milhões de anúncios em 2 mil cidades brasileiras – nem as maiores corretoras de imóveis têm uma capilaridade tão grande. Segundo o Índice FipeZap, o preço médio do metro quadrado no Brasil teve queda de 7,44% no acumulado de 2015. Somente em São Paulo, o lançamento de novas unidades caiu 31,6% no período, enquanto as vendas recuaram 3,4%, de acordo com a Secovi.

 

“O mercado está entendendo que o modelo online pode ser uma alternativa eficiente para reduzir seus estoques”, diz Lucas Vargas, vice-presidente de marketing e vendas do VivaReal. Para Requarth, mesmo com uma eventual retração, ainda há muito espaço para ampliar a fatia dos sites imobiliários nesse bolo. “Esses portais permitem uma compra mais assertiva, oferecendo recursos, como fotos, vídeos, dados de preço e localização”, afirma o consultor do mercado imobiliário Guilherme Machado. Os investidores de capital de risco parecem ter entendido esse potencial.

 

Em seis anos, o VivaReal recebeu seis rodadas de investimentos, que totalizaram US$ 74,8 milhões. Os aportes vieram de fundos do Vale do Silício, como o 500 Startups, e o Spark Capital, de Boston, que já investiu em empresas como o Twitter. Mais que as cifras, os acordos trouxeram nomes de peso do setor de sites imobiliários. Um dos membros do conselho é Greg Waldorf, diretor do portal americano Trulia, comprado em fevereiro pelo conterrâneo Zillow, por US$ 2,5 bilhões. Simon Baker, consultor e investidor da startup, foi CEO do site australiano REA Group, avaliado em US$ 6,6 bilhões.

 

O primeiro contato de Requarth com o setor imobiliário aconteceu em 2003. Depois de se formar na San Diego University, ele trabalhou seis meses na Z57, empresa de softwares para o mercado imobiliário e o único emprego formal de toda a sua carreira. Inquieto, deixou a companhia e decidiu viajar até Bogotá para encontrar a namorada colombiana dos tempos de universidade. A visita virou casamento. No país, conheceu o alemão Thomas Floracks, que desenvolvia sites para startups. Juntos, fundaram a BMG, que criava portais bilíngues para corretores de imóveis hispânicos nos Estados Unidos.

 

O negócio ia bem até que, em 2008, a crise imobiliária americana forçou a reformulação do modelo. Foi quando surgiu o VivaReal. Os primeiros meses foram tocados a partir de um escritório minúsculo de 3 m2. A lembrança daquela época reside na réplica do cubículo, instalada em um dos onze andares do prédio de 5 mil m2 que abriga a sede do VivaReal, em São Paulo. “Essa réplica é para todos se lembrarem de onde a gente veio”, diz Requarth.

 

A empresa tem unidades em 16 capitais e saltou de 300 funcionários para 460 profissionais em 2015. Desde 2011, o Brasil é a única operação da startup. “O mercado colombiano inteiro é igual ao do Rio de Janeiro”, diz. “Decidimos nos concentrar no Brasil.” Os investimentos não se resumem ao portal de imóveis. Há um ano, a startup lançou o Viva Decora, site que reúne arquitetos, designers de interiores e decoradores. A empresa também comprou uma participação na Suahouse.com, companhia brasileira de softwares para o setor.